Esta semana, ao ler um post do Lins sobre o campeonato brasileiro de 1980, me dei conta de como funciona a minha relação com a paixão nacional.
Futebol me provoca sonolência. Aquela narrativa cadenciada, sempre no mesmo ritmo, funciona como o tique-taque de um relógio antigo. No rádio do carro, então, é tiro e queda: durmo quase que instantaneamente - uma vez que eu esteja no banco do carona, é bom que fique esclarecido.
Isto vai parecer quase uma heresia, quando eu lhes contar que meu pai era jogador de futebol. Sim, senhores: chegou a jogar no célebre Renner de Porto Alegre, embora tenha pertencido a uma geração para a qual "amor a camisa" significava ter que trabalhar em outra coisa para sobreviver.
Pois nem estes bons genes funcionaram de modo a me fazer mudar de idéia: acho futebol uma coisa muito, mas muito monótona. E me irrito, profundamente, com o tempo que se leva para armar uma jogada, chegar à pequena área e....nada! Bola por cima da trave, ou escanteio, ou qualquer outra coisa que não seja um gol.
Tanto isto é verdade, que só paro na frente da TV quando algo extraordinário acontece. Se alguém soltar um galo preto no meio do gramado - houve uma época em que isto era moda - ou um torcedor mais fanático invadir o campo para abraçar seu ídolo, lá estou eu, olhos grudados na telinha.
Pois o episódio mais curioso do qual me lembro ocorreu - sim, eu fui pesquisar - no dia 10 de agosto de 1978, no estádio do Morumbi. Partida decisiva para o campeonato nacional: Palmeiras x Guarani. Aos 26 do segundo tempo, o goleiro Leão deu uma cotovelada em Careca e foi expulso. Como o Palmeiras já fizera todas as substituições regulamentares, o meia Escurinho foi escolhido para defender o pênalti. É claro que Zenon marcou 1x0 para o Guarani.
Às vésperas de mais uma copa do mundo, fico imaginando quantas vezes a bola ficará parada, nos braços do juiz, esperando que algum episódio extraordinário seja resolvido.
Podem estar certos: sempre que isto ocorrer, lá estarei, tigela de pipoca no colo, curtindo o melhor do futebol.
Por falar no Renner, no ano passado o inesquecível time gaúcho teve sua história recontada em documentário produzido e dirigido por Alexandre Derlam. Aficcionados podem clicar aqui para ver o trailler de "Papão de 54".