Finalmente, surge o primeiro resultado concreto da aliança PSDB/PFL para a corrida presidencial.
O programa eleitoral do PFL, levado ao ar ontem à noite, no horário nobre da TV aberta, parece indicar que as tarefas de campanha foram bem divididas. Ou muito me engano, ou caberá ao PFL revelar ao povo o que representam os escândalos governamentais deste último ano, ao passo que o PSDB ficará encarregado de apresentar o candidato e o programa de governo. Se o que tivemos ontem foi uma amostra disso, creio que o PFL está de parabéns.
Didático, preciso e cirúrgico, o programa de ontem conseguiu a façanha de resumir em onze minutos um ano inteiro de escândalos. E o fez de modo a atingir aquela camada da população que, embora se declare conhecedora das denúncias de corrupção, não parece suficientemente esclarecida a respeito do que elas representam, já que continua reafirmando seu voto em Lula.
Corajoso, o PFL tratou de aproximar o presidente Lula não só dos escândalos mas, sobretudo, das principais figuras neles envolvidas. Cobrou-lhe responsabilidades. Evidenciou o quão difícil é acreditar que tudo acontecia alí, diante das suas barbas, sem que ele de nada soubesse.
Ataques desta natureza, dizem os especialistas, são arriscados porque podem vitimizar o presidente, provocando o efeito contrário do pretendido. Já há algum tempo fala-se de um "efeito teflon", que parece impedir que a imagem presidencial seja tocada pelos escândalos do último ano. E os números das pesquisas encorajam alguns a apostar na máxima de que "quanto mais se bate em Lula, mais ele cresce em popularidade".
Vou discordar. As próprias pesquisas deixam claro que não há risco algum. Na pior das hipóteses, Lula terá aumentados os altíssimos índices de intenções de votos que já acumula hoje - de dezembro para cá, ele só faz crescer. Tanto faz, pois, se ele vai ganhar por muita ou pouca diferença.
E o fato é que ainda não se bateu no presidente. Não para a grande maioria da população, que não tem acesso ao colunismo político, não assiste às transmissões da TV Senado e da TV Câmara, e que muda de canal, buscando outra novela, sempre que começa o Jornal Nacional.
Logo, há grandes chances de que Lula permaneça intocado justamente porque uma enorme massa populacional "ouviu falar" de corrupção no seu governo mas não sabe quando, onde ou de que maneira ela ocorreu. Seria inviável pensar em mudar o quadro das pesquisas sem sanar esta lacuna. Não é por acaso que Lula sempre evitou falar claramente sobre o assunto: ele sabe que quanto mais confusa for a informação, menos importância ela terá para a camada de eleitores responsável pela maioria de seu votos.
Não há, portanto, qualquer risco nesta divisão de tarefas assumida ontem, em cadeia nacional. Quando os números indicam que não há mais nada a perder, é porque é chegada a hora do tudo ou nada.