No início de março, a Dolce & Gabbana retirou das ruas sua última campanha. Pesava, sobre a grife, a acusação de que estaria incentivando a violência contra a mulher. Foi apenas um round mais ruidoso entre Domenico Dolce e Stefano Gabbana e os movimentos dos direitos humanos. Já se acumulavam, há algum tempo, os protestos contra os anúncios da grife, que andava usando, com certa freqüência, imagens de submissão feminina em suas campanhas.

Dolce & Gabbana: ambigüidade e polêmica.
Na época do recuo da D&G, não cheguei a escrever sobre o tema. Conversando com amigos, porém, levantei dois pontos: o primeiro, é que a imagem utilizada poderia não necessariamente representar violência, mas fazer uso do próprio imaginário feminino. Sim, minhas queridas ... A imagem acima pode não fazer parte do meu ou do seu imaginário sexual mas, desde a década de 1970, quando Shere Hite publicou seu polêmico relatório, sabe-se que ela encontra eco, enquanto fantasia, junto a um número significativo de mulheres. Inverta-se a coisa - colocando um homem na posição da modelo, sob olhar de um grupo feminino - e o elemento "violência" simplesmente desaparecerá junto com os protestos. Isto nos dá bem a medida de que o anúncio chocou muito mais pelo que sugeria a respeito do comportamento sexual feminino do que pela suposta carga de violência contida na mensagem.
O segundo ponto que levantei à época é que marcas de moda vivem de conceito e exposição. Quando uma grife ganha espaço na mídia mundial, tornando-se foco de uma polêmica, seus donos podem se dar por satisfeitos. É o tal ditado: "fale bem, fale mal, mas fale de mim". E há um segundo, tão velho quanto este, que avisa que "em propaganda nada se cria - tudo se copia". Não demorou para este último se concretizar em terras tupiniquins.
É assim que, folhando a Veja desta semana, me deparei com o anúncio da MTV. Dois bonecos ( Barbie e Ken?) protagonizam uma cena que é só violência: nua, ela é arrastada por ele na direção de um forno. Para melhor esclarecer, a chamada avisa: "Uma diva da música. Um astro de Hollywood. Um dia, ele colocou a cabeça dela em um forno ligado." Em seguida, somos avisados de que duas vezes por semana, a MTV conta "as melhores e mais divertidas histórias da música".

MTV: só mau gosto.
Ao contrário do que acontecia no anúncio de Dolce & Gabbana, aqui não há margem para dúvidas: é crueldade explícita, sem qualquer encanto, que a utilização de bonecos não pôde amenizar - ao contrário, parece que deixou a coisa ainda mais tétrica. E é crueldade aprovada: colocar a cabeça de uma mulher dentro de um forno ligado é "uma das melhores e mais divertidas histórias da música".
É provável, muito provável, que tanto agência quanto o anunciante estejam atrás de polêmica. Não raro, a MTV brasileira, na sua busca incessante por vanguardismo - que, de resto, costuma ser a pedra de toque das marcas voltadas para o público jovem - peca pelo mau gosto. Talvez eles queiram mesmo provocar protestos - algo assim como aquela ameaça de boicote sofrida pela Dolce & Gabbana, que possa lhes render algumas páginas na imprensa. A diferença crucial é que, neste caso, faltou sensibilidade, classe e magia - o que significa, em última análise, que vai ser difícil encontrar quem os defenda.