terça-feira, 16 de julho de 2013

"Menos marketing, mais franqueza" e outras histórias da Carochinha

Na perspectiva do panorama visto de Brasília, a campanha eleitoral será totalmente diferente das dos últimos anos em que prevaleceu o marketing sobre o diálogo franco e maduro com a sociedade”.
(Dora Kramer, em sua coluna de hoje para o Estadão)

Há uma porção de erros nesta afirmação – que, se entendi direito, não é o que pensa Dora Kramer, e sim o que ela tem ouvido de seus interlocutores no Palácio do Planalto. Só me resta torcer para que os petistas estejam mesmo acreditando nesta bobagem de "menos marketing" - e que a oposição passe longe dela.

Em primeiro lugar a declaração acima evidencia a ilusão, bastante comum, de que o marketing político se opõe ao diálogo franco com a sociedade. Ora, queridos: sem marketing político a maioria da população nem sequer sabe que o diálogo está acontecendo. Sem marketing político, o tal diálogo franco com a sociedade é prazer reservado a poucos, nos debates que varam a madrugada, no Roda Viva e em outros recantos de baixíssima audiência.

Obviamente, nas entrelinhas desta declaração percebe-se, também, aquela gostosa demonização do marketing político – a quem o senso comum tupiniquim tem atribuído todas as mazelas políticas da nação. Já escrevi no passado sobre como o bom marketing - que é o de sucesso e, por isso mesmo, alvo constante de ressentimentos - não mente.  Cliquem aqui para reler.

Mas há mais: na revelação do petista à colunista está a certeza, agora evidenciada pelas ruas, de que as pessoas estão fartas dos políticos tradicionais, que querem algo diferente do que aí está. É esta certeza que, ao que tudo indica, está embalando a nova postura dos que habitam o Palácio do Planalto. 

A rejeição aos políticos tradicionais pode até ser novidade para alguns setores da política e da imprensa. Mas para o marketing político esta tendência mundial é tão velha quanto a primeira eleição de Obama - que tinha como principal característica, fartamente explorada por seus marqueteiros, um "jeito diferente de se comportar";  uma "postura independente" das tradições e círculos políticos consagrados do cenário americano.  

Em praias brasileiras, isto que hoje muitos acham que é novidade desembarcou em 2010. Foi a bordo desta estratégia  - da candidata “sem marketing”, “diferente”, que “não tem jeito de político convencional” - que Marina Silva alcançou quase 20 milhões de votos.  Por óbvio que, agora, quando as ruas escancararam aquilo que antes só os marqueteiros conseguiam enxergar, Marina vai seguir firme no mesmo discurso.

Raimundo Colombo é outro exemplo.  O catarinense – que em sua biografia diz não acreditar em marketing, mas contratou para si um dos melhores marqueteiros do país – tinha como principal característica a seu favor o fato de “ser diferente” e “não parecer um político como os outros”. Era isto que aparecia nas pesquisas qualitativas – e que alicerçou toda a sua vitoriosa jornada rumo ao governo do estado.

Daí se conclui aquele óbvio que a oposição deve levar em conta se quiser ter alguma chance: essa história de “menos marketing e mais qualquer-coisa-idealista-ou-romântica-que-você- quiser-inserir-neste-trecho nada mais é do que o bom e velho marketing político. Na veia. E da melhor qualidade.   

terça-feira, 9 de julho de 2013

Snowden vai salvar Dilma - e a oposição vai ficar vendo a banda passar.

Antes de tudo: não estou aqui referendando o monitoramento que os EUA estariam operando em outros países.  Penso, sim, que é de uma extrema ingenuidade nossas autoridades tratarem a coisa como se fosse a descoberta da roda.

Quer dizer que altíssimas patentes do Governo Federal e da Defesa acreditavam, até o último final de semana, que o país que inventou a internet e a telefonia celular, e que vive sob ameaça terrorista, não estaria bisbilhotando as comunicações através do mundo.?

Ai, me poupem, por favor. Seria o caso de recomendar menos Pollyanna e mais seriados de televisão – que são ficção, ok, mas carregam consigo alguma verossimilhança. Só que certamente não é este o caso.

O governo e os serviços de inteligência nacionais devem saber – ou no mínimo desconfiar - que isto ocorre há anos.  O que aconteceu, agora, é que as revelações de Edward Snowden a respeito do monitoramento das comunicações no Brasil vieram a calhar. Eu imagino até a Dilma fazendo uma dança comemorativa - no pior estilo Ângela Guadagnin, lembram? – ao saber que os documentos de Snowden incluíam a nação.

Não é novidade que Hugo Chavez fez escola com este pessoal que hoje nos governa.  Logo, o que é melhor para um governo, cujo povo anda nas ruas a reclamar de tudo e por tudo, do que encontrar um inimigo externo? Muda-se a agenda do dia para noite. Na pior das hipóteses, os gatos pingados que ainda persistem nas ruas começam  a produzir cartazes contra os yankees. Na melhor, vão pra casa porque a nação foi ameaçada é a hora é de união.

A operação de venezuelização começou já no domingo com a matéria do Fantástico.  A imprensa, afobada,  embarcou na onda com a manchete “o Brasil é o país da América Latina mais monitorado pelos EUA" – uma estupidez quando consideramos que se os EUA estão monitorando a América Latina, e o Brasil é o maior país da América Latina, só pode ter o maior volume de comunicações e, portanto, ser o mais monitorado.

Mas o fato é que a tolice sensacionalista colou e, já na segunda-feira, os ânimos entre membros do governo e do parlamento estavam a tal ponto inflamados que não houve espaço para uma voz mais sensata, que tentasse dizer “respira aí minha gente, antes de sair a dizer - e fazer -  bobagens”.

De ontem para cá o clima foi de histeria. Ideli Salvatti – cujas fofocas palacianas davam conta de que estaria na frigideira de Dilma – renasceu para avisar que a soberania nacional está em xeque e – malandragem da primeira hora – querer apressar a votação do marco civil da internet na Câmara.  Os plenários do Senado e da Câmara, aliás, viram discursos inflamados,  como não se via há semanas – pelo menos, desde meados de junho, quando todos passaram a adotar um tom mais humilde de taciturno.

Hoje, na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, foram aprovados requerimentos para se ouvir legiões: do colunista do The Guardian aos representantes do Google e do Facebook, estão todos convidados. A mesma comissão também aprovou um voto, a ser encaminhado à Presidência da República, em que manifesta apoio a um eventual pedido de asilo ao governo brasileiro por Edward Snowden.

Vinda do governo, a patacoada sem precedentes não espanta. Como eu disse acima, as revelações de Edward Snowden acabaram oferecendo uma bela oportunidade de mudança de ares  na pauta nacional. O que assusta é que parlamentares da oposição estejam caindo neste jogo.

Entende-se que a oposição não possa  ir a público dizer “calma gente, não é bem assim”, sob pena de ser acusada, pelos governistas, de “traição à pátria”. Mas que ao menos guardasse um silêncio cauteloso antes de cair na arapuca que o destino armou e Dilma agarrou com unhas e dentes. 

domingo, 7 de julho de 2013

Quando tucanos sabotam tucanos

O primeiro obstáculo que o PSDB precisa enfrentar antes de sonhar com um retorno à presidência da república é o próprio PSDB.

A obviedade da afirmação acima não impede que, de quatro em quatro anos, a verdade nela contida reapareça para operar desastres.  É uma doença crônica: o PSDB não consegue superar suas disputas internas, em especial as pré-eleitorais, para garantir uma vitória nas urnas.

Comecemos por aquilo que eu chamo de as três pragas da militância tucana: aecistas, serristas e alckmistas. Muito ativas na internet, estas miríades de patetas que voejam em torno das principais figuras do partido seguem se digladiando mesmo depois que já foi decidido quem será o candidato.

Embora eu desconfie – pela frouxidão de propósito que sua atitude online revela - que jamais partam para um corpo-a-corpo durante as campanhas, estas “facções” provocam um senhor estrago. Ao invés de promover a união em torno do escolhido, perdem tempo e energia digladiando-se e jogando pedras no candidato da vez. As áreas de comentários dos blogs dedicados à política e, mais recentemente, as redes sociais estão repletas de exemplos desta idiotia eleitoral.

Não se vê tal coisa no petismo. Uma vez que Lula – sim, ele sozinho - decidiu que Dilma seria sua sucessora, a militância não só acatou a decisão como passou a trabalhar furiosamente por ela. Para além das fronteiras, passadas as prévias, não se viu os partidários de Hillary Clinton tentando derrubar Obama. E eu fico realmente incomodada que seja preciso escrever tal coisa porque é óbvio que só assim se ganha uma eleição. Se os filiados não conseguem unir forças em torno de um determinado nome, o que esperar do resto do eleitorado?

Sei bem que não há prévias no PSDB. Os candidatos ali são definidos ora numa mesa do Fasano, ora por teimosia, ora pelo pragmatismo do “como não vamos ganhar mesmo, enviemos fulano para o sacrifício”.  Eu até entendo que esta postura revolte a militância. Mas a pergunta é: vocês querem mudar o partido ou ganhar a eleição?

Para o próximo pleito, o candidato será Aécio Neves.  Acertadamente, desta vez o PSDB decidiu com bastante antecedência - é preciso tempo para trabalhar nacionalmente o nome de um candidato que nunca disputou uma eleição presidencial.  

Quanto mais cedo a militância entender que está decidido, e que não haverá prévias ou recuos na decisão,  mais aumentam as chances de Aécio – que são as chances do PSDB, pelo amor da santinha.  Mas já noto que estão preferindo, como em 2006 e 2010, perder um tempo precioso, nas redes e fora delas, para tentar reverter a decisão.  Se insistirem nisso, acontecerá o de sempre: a candidatura morre antes mesmo de começar a campanha oficial.


O (mau) exemplo que vem de cima

Sim, eu acho que é uma generosa evidência de - perdão -  burrice que a militância tucana não se dê conta, por si mesma, do quanto a postura acima relatada inviabiliza as chances do PSDB voltar ao Governo Federal. Mas também é verdade que os líderes do partido não trabalham para promover a união.  Ao contrário: alimentam, constantemente, a disputa.

Vou me abster de falar das campanhas anteriores – quando tivemos Fernando Henrique sabotando a campanha de Serra, Aécio e Serra sabotando a campanha de Alckmin, Alckmin e Aécio sabotando a campanha de Serra.  Os arquivos do blog, disponíveis aí, na coluna da margem direita, estão repletos de artigos sobre isso. São dez anos de arquivos. Um registro histórico lamentável de muitos tapetes puxados e farta distribuição de cascas de banana.  Mas a pergunta para a militância, mais uma vez, é: vocês querem fazer justiça interna partidária ou ganhar a eleição?

De minha parte, prefiro me concentrar no quadro atual. E ele é cristalino – lamentavelmente cristalino.

Em meados de maio, quando tudo indicava que 2014 seria uma eleição pró-forma, com Dilma sendo simplesmente reconduzida ao poder, o PSDB entregou o bastão de mando para Aécio Neves. Serra tentou se conter e Fernando Henrique apareceu apenas para dizer que era a vez do mineiro.

Na convenção do dia 18 de maio, Aécio foi escolhido presidente – uma condição fundamental para nacionalizar seu nome – e apontado como candidato único do partido para o pleito de 2014. Todas as lideranças, inclusive um titubeante José Serra, foram ao microfone para declarar apoio a Aécio. Decisão mais do que acertada, mas tomada – diante do que agora se vê – por razões tortas. Estavam entregando a Aécio, de bom grado, uma eleição praticamente perdida.

Até meados de junho, tudo correu a contento: os programas e propagandas de televisão do PSDB privilegiaram Aécio. Também foram entregues a ele todos os espaços na imprensa. Na qualidade de líder máximo do partido e candidato à presidência, Aécio Neves tornou-se o porta-voz da legenda.

Então vieram as gigantescas manifestações, o #vemprarua, e, na sequencia, pesquisas mostrando um sério, ainda que momentâneo, abalo na popularidade de Dilma Rousseff.  Foi o que bastou para que as lideranças tucanas começassem a dar mostras de que a unanimidade em torno de Aécio era apenas a unanimidade em torno do nome que “vai perder a eleição para Dilma”. Na melhor das hipóteses, estavam apostando que Aécio apenas pavimentaria o caminho para 2018.


Sempre podemos contar com a falta de timing de Fernando Henrique

Fernando Henrique certamente não pretende voltar à presidência da república. E defende, de peito aberto, a candidatura de Aécio. Mas, vaidoso como ele só, não resistiu à tentação de aproveitar o péssimo momento do PT para empreender uma justiçazinha pessoal. Depois de uma década sendo escorraçado pela hegemonia petista no cenário político, ficou lisonjeado  de voltar à luzes da ribalta para comentar o que interpretou como um sinal das ruas de que seus mais cruéis adversários estavam perdendo força.

A onipresença de Fernando Henrique neste momento é prejudicial não porque ele dispute a candidatura com Aécio, mas porque toma do mineiro um espaço precioso na imprensa.  Um líder menos vaidoso e mais consciente de seu verdadeiro papel neste momento negaria entrevistas tentando forçar convites para o atual presidente do partido – mesmo arriscando perdê-las.

No mínimo porque, a despeito da predileção da imprensa por ele, o recall de Fernando Henrique não é bom nas classes menos privilegiadas – aquelas que enchem urnas.  Também alguns de seus posicionamentos pessoais – como o apoio à liberação da maconha, por exemplo – podem afastar o eleitorado mais conservador, do qual o PSDB não pode prescindir se quiser derrotar o PT.  Finalmente, que uma parte do país esteja gritando contra o PT nas ruas não significa que passou, enfim, a reconhecer o valor de Fernando Henrique. De novo: um líder consciente de seu verdadeiro papel neste momento evitaria cair em tal armadilha.

É, eu sei. Fernando Henrique é um intelectual respeitado, com uma atuação presidencial exemplar, que só enriquece e orgulha o partido, etc e tal. Mas a pergunta é: vocês querem fazer jus a Fernando Henrique ou ganhar a eleição?


José Serra e seu sonho pessoal : uma terceira derrota no horizonte

Sumido desde que perdeu a prefeitura de São Paulo para Fernando Haddad, José Serra ensaiou alguma resistência no período pré-convenção. Em abril ele reapareceu como articulista do Estadão, ao mesmo tempo em que a imprensa dava conta de uma possível mudança para o PPS – o velho estilo Serra de ameaçar o partido com uma retirada para tentar barrar o nome de Aécio. Mas como logo Roberto Freire apareceu para esclarecer que o convite não incluía uma candidatura à presidência, o assunto morreu.

Em maio, Serra foi à convenção e parecia conformado com a realidade posta. Mas bastou que, no início de junho, pesquisas realizadas pela CNI e CNT apontassem a possibilidade de um segundo turno em 2014, para que  Serra mandasse um recado: ele ainda estava no jogo – o mural da vez foi a coluna de Dora Kramer no Estadão.

Quando, na segunda metade de junho, a onda das manifestações tomou força, José Serra  arranjou  duas páginas na Veja para falar de Albert Otto Hirschman e (podem rir) de “resultados que seriam considerados impossíveis por um raciocínio baseado apenas na probabilidade”.  José Serra articulista de Veja é algo que, salvo algum lapso de memória, só se viu em fevereiro de 2010, quando ele tentava se consolidar como candidato para o pleito presidencial daquele ano.  

Uma parte deste artigo já estava pronta ontem, enquanto a matéria da Folha de S. Paulo deste domingo ainda estava no prelo. Agora se sabe que Roberto Freire está revendo a possibilidade de apoiar Eduardo Campos e acenando para José Serra com uma candidatura presidencial via MD - uma nova legenda a ser formada a partir da fusão entre PPS e PMN. Serra ainda está pressionando o PSDB para que volte atrás. Se concretizar a ameaça, o máximo que ele vai conseguir é levar Marina Silva a disputar o segundo turno com Dilma.  


Todo mundo tem, é claro, o direito de se candidatar à presidência da república.  Serra tem todo o direito de achar que, como Lula, “vencerá na terceira tentativa” – ainda que a recente derrota para Haddad em São Paulo, tradicional reduto tucano,  lhe esfregue na cara que não.  Mas a militância do PSDB não tem o direito de cair nessa outra vez.  Porque a pergunta é: vocês querem ver Serra candidato ou querem ganhar a eleição? 

sábado, 15 de junho de 2013

Por que eles vão às ruas? Um texto sobre retardo coletivo

A manifestação deste sábado em Brasília ilustra bem o que vem acontecendo em algumas ruas do país – inclusive, o que aconteceu em São Paulo ao longo desta semana.  Grupos de brasileiros estão indo às ruas sem objetivo algum, movidos apenas pela vontade de protestar.

A onda não é nova. Há tempos que vemos coisas assim ao redor do mundo. Os protestos “contra a globalização” oferecem, talvez, o exemplo mais bem acabado de manifestantes que vão às ruas movidos simplesmente pelo desejo de virar notícia e alentar a alma com a ilusão de que estão a mudar o mundo. Indiquem uma só vez que a tal da globalização sofreu qualquer abalo por conta destes protestos e aceito rever a afirmação.

No Brasil a moda até demorou a chegar. A jabuticaba levou algum tempo para brotar e gerar frutos.  E, embora a safra ainda seja tímida – exceto por São Paulo, o número de gente nas ruas foi, até o momento, bem mirrado – chega eivada daquele retardo coletivo que nos cai tão bem.

Os novos caras pintadas

O que querem os manifestantes de Brasília? Protestar "contra as obras da Copa” – a roubalheira, o superfaturamento, o fato de que há coisas mais importantes merecendo atenção do Estado, etc e tal.  Então lá vão eles, protestar “contra as obras da Copa” quando  elas já estão praticamente entregues.  Não o fizeram por ocasião da campanha que levou o Brasil a ser sede da competição. Também ficaram em casa à época do lançamento dos editais para as tais obras. Apresentam-se agora, como soldados que chegam ao front depois de assinado o armistício.

São os inúteis manifestantes de uma causa morta e enterrada, sem qualquer reivindicação que possa ser atendida.  Chances de que venham a impedir a realização da Copa – ou, vá lá, mais verbas para o que interessa? Zero. Utilidade do movimento? Zero. Índice de retardo coletivo? Dez.

Impossível não rir diante do ridículo que estes de Brasília se autodenominem “caras pintadas”. Querem se apropriar da força simbólica de uma das poucas manifestações de rua do país que surtiu o efeito desejado: a campanha pelo impeachment de Collor.

Alguém deveria contar a estes jovens imberbes que daquela vez deu certo não apenas porque havia um PT na oposição a insuflar e organizar as coisas. Havia, antes de tudo, um objetivo claro: tirar do poder um presidente corrupto. Havia, também, um indiscutível tecido de fundo a sustentar o apoio popular: aquele presidente confiscara dinheiro da classe média; desferira um golpe mortal contra o bolso, que é onde reside o coração do povo.

O fetiche da primavera

É, eu sei. Das muitas coisas que se tem dito sobre o que aconteceu em São Paulo ao longo desta semana, há a versão de que, a despeito do preço do transporte público, a volta da inflação seria o pano de fundo a sustentar o suposto apoio popular ao movimento. Não é.  Não chegou a um ponto crítico o suficiente para sê-lo.  E a verdade é que, até a polícia usar de violência, nem havia em São Paulo o apoio popular que querem nos fazer crer. Somente quando jornalistas e pessoas que não estavam na manifestação foram agredidos é que a população em geral passou a dar importância - à agressão;  não à causa difusa do protesto.   

Ocorre que tão descabido quanto a manifestação “contra as obras da Copa” é este movimento em São Paulo que se origina, vamos lembrar,  na esperança da “tarifa zero” para o transporte público- os tais R$ 0,20 começaram a aparecer nos cartazes só quando o ridículo da reivindicação inicial ficou evidente.  Chances de que a tarifa seja extinta? Zero. Utilidade do movimento? Zero. Índice de retardo coletivo? Dez.

Se quiserem mesmo ver um denominador comum nos manifestos da última semana - e enquanto escrevo há outro, também sem objetivo concreto, ocorrendo em Belo Horizonte -  sugiro que se debrucem no fetiche adolescente de criar uma versão nacional da primavera árabe. Isto, é claro, sem que se tenha, aqui, o objetivo de derrubar um regime opressor. Ninguém aqui quer derrubar governos. Na maioria dos casos a miscelânea de palavras de ordem é tamanha que  a imprensa tem dificuldades  para saber o que quer aquela gente reunida no meio da rua. 

Pois tudo  o que querem os nossos atuais manifestantes é criar um movimento via redes sociais – ponto bem importante do fetiche –, sem liderança definida,  que leve jovens às ruas para protestar contra... Contra o quê mesmo? Pouco importa.  O frisson está em mostrar que “saímos da frente do computador”.  O principal objetivo é emplacar imagens espetaculares na imprensa. E não precisa ser um observador muito atento para perceber a teatralidade com a qual os manifestantes de São Paulo se ajoelhavam diante da polícia -  ora oferecendo flores, ora mostrando o punho fechado -  buscando, de um jeito meio patético, repetir aqui cenas já consagradas pela imprensa em partes do globo onde ir às ruas é um papo mais sério.  

Filma eu

É verdade que encontraram bons parceiros para a empreitada. Com raras exceções, a imprensa mal disfarçou a euforia com a versão tupiniquim do espetáculo primaveril. Penso ser desnecessário dizer o quanto a ação policial - ao que tudo indica desproporcional em São Paulo - contribuiu para o show. Não há holofotes sem mártires. E sem sangue não há mártires para os holofotes. 

Esta lição nossos manifestantes já aprenderam. Nos últimos dias, arranhões bobos foram exibidos com a mesma pompa das lesões mais graves. Medalhas de uma guerra na qual a ausência de um inimigo claramente estabelecido acabou por transformar a polícia - única peça em jogo com papel definido -  em alvo principal. Tolice atrás de tolice.

“E agora, NG, você quer decidir como e por que vão às ruas os brasileiros?”

Deus me livre. Cada um vai às ruas pelos motivos que quiser. Se quiserem ir sem motivos, como agora, fiquem à vontade. Só não queiram me convencer de que está acontecendo algo importante no Brasil neste momento.  Porque este país tem problemas sérios demais para ficarmos criando teorias sociais – sim, houve isso - em torno do que não é mais que um desejo juvenil de fazer de conta que se está mudando o mundo.

Só há um aspecto que realmente me interessa nesta história: o debate sobre como canalizar a energia desta turma desmiolada para alguma causa importante e possível. Mas eu sou humilde o suficiente para reconhecer que esta é uma tarefa para feras da sociologia e da comunicação. A mim resta torcer para que, quando surgirem , tais feras estejam do lado claro da força. Porque se hoje esta turba não tem rumo, também é verdade que tem potencial. 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Marina, Yoani e o vitimismo como estratégia de marketing político


Não é de hoje que o vitimismo tem se mostrado uma poderosa estratégia para a “conquista de mentes e corações”. A trajetória de Gandhi está aí para comprovar que a força deste recurso discursivo antecede o marketing político como hoje o conhecemos. É uma força que reside, antes de tudo, na universalidade da sua linguagem: todos somos capazes de reconhecer e simpatizar com a fragilidade e vulnerabilidade humanas.

Não vou, aqui, me demorar sobre questões óbvias como a construção de um discurso maniqueísta – do forte opressor contra o fraco oprimido -, invariavelmente emitido em volumes que dispensam a agressividade e abundam em melancólica condenação a sugerir mudanças.  Também penso que são desnecessárias observações sobre o importante papel desempenhado pela linguagem não verbal – de uma imagética que, idealmente, inclui fragilidade física, gestual contido e assexuado, bem como o uso de panos, mantos e outros trapos a cobrir o corpo.

Prefiro falar do quanto, durante seu período embrionário, tal construção parece passar despercebida por gente com tino para as coisas da política. Na maioria das vezes, os beneficiários da estratégia vitimista só passam a ser encarados como tal depois que já ganharam peso político suficiente para influenciar as urnas.

Confesso que me coloco fora deste distraído clube por uma questão simplória e jocosa; um traço de personalidade: na vida ou na política, detesto vitimismo. Sou do tipo que quando a amiga vem se lamuriar do marido pela terceira vez já começo a ficar grosseira, sugerindo o divórcio. Logo, é a impertinência que faz soar o meu radar interno sempre que vejo germinar uma liderança política com base em um discurso vitimista.

Daí que, muito cedo, coloquei Marina Silva em meu radar. Ela nem era senadora e eu já sentia eriçar os pelos da nuca ao perceber, em sua trajetória, os sinais clássicos de uma estratégia vitimista: o histórico de dificuldades, a fragilidade física sempre evidenciada, a voz sôfrega a suavizar o peso de um discurso de conteúdo radical e, é claro, os panos.  Riam da força imagética dos “panos” sobre o inconsciente ocidental todos aqueles que nunca se dedicaram ao estudo da arte sacra.

Mas falar sobre e Gandhi e Marina Silva está fácil demais por estes dias. Difícil é identificar em Osama Bin Laden as mesmas táticas, direcionadas – fique bem claro – a objetivos totalmente diversos.  Difícil é olhar para Yoani Sanchez, perceber que a estratégia já vem em bom curso e arriscar-se a perguntar até que ponto é consciente ou resultado de uma intuição poderosa. 

Não, não penso que Yoani Sanchez é, como querem alguns adeptos das teorias conspiratórias, agente do regime cubano. Também não duvido que, como afirma a última edição da revista Veja, exista uma operação para espioná-la em sua visita ao Brasil.

Para ser bem franca, nenhuma das duas coisas me interessam.  Yoani Sanchez só me interessa porque percebo em sua conduta elementos inconfundíveis do vitimismo enquanto estratégia de marketing político. Seu discurso, que ultrapassou as fronteiras da internet para ganhar a admiração mundial, é um lamurio triste a apontar problemas e injustiças às quais parece não ter forças – espirituais ou físicas - para resistir. Seus posts e tweets são permeados de sinais de que descartaria qualquer atitude mais enérgica contra um regime reconhecidamente perverso e violento. 

Por pior que seja a situação relatada, não há um só pingo de revolta estridente, de bílis, no discurso de Yoani. E o fato óbvio é que ela não seria laureada ou reconhecida internacionalmente se mostrasse o fígado. O palatável, por esses dias, fala manso; comove antes de seduzir; conquista pela fragilidade aparente.

É verdade que ainda não vi – embora não tenha procurado – Yoani Sanchez envolta em panos. Mas também é fato que os longos cabelos, por ora, lhe caem nos ombros produzindo efeito similar. É preciso, ainda, reforçar o questionamento feito anteriormente: impossível saber até que ponto o que está em construção é fruto de um processo intuitivo ou de uma estratégia primorosa.  Mas é obrigatório aceitar que, como filóloga, a cubana não ignora por completo as artes do discurso.

Admito que é com curiosidade quase científica, e um tanto de divertimento, que venho acompanhando a trajetória de Yoani Sanchez. É certo que a blogueira ingressará na vida política tão logo a oportunidade se apresente. E vai surpreender. Principalmente aos que hoje lhe dão projeção a fim de atingir governos de esquerda. Na melhor das hipóteses, arrisco que estão ajudando a criar outra Marina Silva.

domingo, 16 de dezembro de 2012

O massacre de Sandy Hook: coisas que a TV não vai mostrar.



Bath, Michigan, 18 de maio de 1927: o fazendeiro  Andrew Kehoe mata a esposa, incendeia sua propriedade  e se dirige para a escola local. Ali detona duas bombas que plantara anteriormente, matando 38 crianças, seis adultos e a si mesmo. 

Desde então, inúmeros ataques semelhantes ocorreram em escolas americanas.  Entre os assassinos, estão dirigentes, pais, alunos, ex-alunos e, em alguns casos, gente sem qualquer envolvimento direto com a escola. Entre as armas escolhidas, encontra-se dinamite, bombas caseiras e, é claro, armas de fogo.

A proliferação deste tipo de crime, a repetitiva escolha do cenário escolar, o perfil dos criminosos e sua motivação inspiraram inúmeras pesquisas acadêmicas, sem que se pudesse chegar a uma conclusão precisa sobre aspectos determinantes que envolvem tais episódios. Nem mesmo a consagrada BAU, Behavioral Analysis Unit , unidade de análise comportamental do FBI, conseguiu bater o martelo sobre a questão.
 
Por isso, espanta a naturalidade com que a imprensa – especialmente a televisiva -  consegue chegar ao veredito cada vez que uma tragédia desta monta se repete: a culpa é do fácil acesso às armas de fogo. 

Na melhor das hipóteses, soa ingênuo. Na pior, parece fruto de um macabro senso de oportunidade, que impulsiona âncoras, entrevistadores e comentaristas a um despudorado aproveitamento político da tragédia. Usa-se o momento de perplexidade para triturar a Segunda Emenda da Constituição americana, que dá ao cidadão o direito de ter armas de fogo, e, na sequencia, difundir o discurso do desarmamento.  Neste afã, números significativos sobre criminalidade são esquecidos: enquanto no Brasil, terra da campanha do desarmamento, temos  um índice de 26,2 homicídios por 100 mil habitantes, nos EUA – terra onde quatro em cada dez cidadãos possuem armas em casa – o mesmo índice é de 4,6. 

Não se quer dizer, com isso, que a facilidade de obter uma arma não tenha papel importante neste tipo de episódio. Certamente tem. Mas não é o principal. E não é, certamente, o “gatilho” de tragédias desta natureza. As armas, vamos colocar cada coisa em seu lugar, surgem como método. Não como motivo. Uma vez decidido a operar um massacre, o psicopata parte para o planejamento – é neste momento que o fácil acesso às armas faz a sua parte. Mas não se enganem: uma vez decidido a matar, o psicopata faria uso de qualquer coisa – das bombas caseiras, cujas receitas estão disponíveis na internet, ao veneno de rato na merenda escolar, as opções são infinitas. 

A constante fundamental nestes crimes, não por acaso sempre esquecida pelos especialistas convidados pelas redes de TV, é outra – e muito mais ligada ao “gatilho” do que a facilidade de acesso às armas. A constante em casos assim tem sido a necessidade de fama por parte do psicopata; o desejo de causar uma verdadeira comoção coletiva, a determinada e louca vontade de ser, enfim, o ator principal de um grande drama televisionado – que não raro inclui ingredientes de vingança contra colegas, pais e professores.

É claro que a TV não é a fonte única de inspiração. Cinema, literatura e videogames já foram apontados como combustíveis para mentes psicologicamente abaladas. Mas o elemento da conquista da fama tem estado sempre presente nas últimas décadas.

Se a imprensa tratasse o tema com a necessária seriedade, o papel da televisão na proliferação deste tipo de crime - principalmente a partir de meados da década de 1960, quando as transmissões em cadeia nacional se tornaram rotina no cotidiano norte-americano - não seria ignorado.

Não se está, aqui, reivindicando censura. Nem mesmo o código ético informal aplicado usualmente ao suicídio. Obviamente, seria impossível não informar sobre um massacre desta magnitude. Mas é preciso explorá-lo com tamanha sanha? São mesmo necessárias as infindáveis transmissões?  Audiência vale tudo?

A questão, notem bem, é de honestidade: até que ponto podemos levar a sério os inúmeros debates televisivos sobre desarmamento enquanto não é dita uma única palavra sobre a influência da imprensa na inspiração destes episódios?

Entende-se o constrangimento. É realmente difícil imaginar que, em meio a uma tarde inteira de transmissão sobre o mais novo drama, a entrevistadora vá perguntar ao especialista da vez: “professor, e de que forma o que estamos fazendo no momento, essa extensa cobertura, pode inspirar novos massacres?”

Mas uma vez que tal postura não é adotada, seria respeitoso não colocar a questão das armas no centro das discussões, como motivação principal para este tipo de crime. Respeitoso com os telespectadores porque é mentira. E, acima de tudo, respeitoso com as vítimas e seus familiares, que não merecem ser explorados politicamente em momento de tamanha dor.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

De Roberto Jefferson para a posteridade


"Desde agosto de 2003 é voz corrente em cada canto desta casa, em cada fundo de plenário, em cada gabinete, em cada banheiro,  que o seu Delúbio, com conhecimento do seu Zé Genoino, sim!, tendo como pombo-correio o Sr. Marcos Valério - um carequinha, que é publicitário lá de Minas Gerais - repassa dinheiro a partidos que compõem a base de sustentação de governo, num negócio chamado mensalão. "

(Jefferson, Roberto, à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, em 14 de junho de 2005)

domingo, 28 de outubro de 2012

Ruim para São Paulo, bom para o Brasil

Raramente o que prejudica São Paulo, pode ser bom para o Brasil. Mas é exatamente este o caso do resultado das urnas neste domingo.


Por vias dolorosas, a perda da “joia da coroa” vai obrigar o PSDB a uma imensa renovação. Que já deveria ter sido operada quando José Serra perdeu para Lula, em 2002 – e não foi.  Que já deveria ter sido operada quando Geraldo Alckmin perdeu para Lula, em 2006 – e não foi. Que já deveria ter sido operada quando Serra perdeu para Dilma, em 2010 – e não foi. 

Agora, o PSDB se renova ou morre. 

Logo, a tragédia que se desenha para São Paulo poderá ser a oportunidade da década para o país.  A crise que permitirá surgir, enfim, uma oposição com condições de ganhar eleições presidenciais. Sem insistir nos mesmos candidatos, no mesmo marqueteiro, na mesma leitura errônea das pesquisas, na mesma tendência mórbida de entregar a agenda da campanha nas mãos dos adversários.

Não se enganem: a competência do “Pense Novo” gestado por João Santana tinha menos a ver com a idade de Serra e Haddad e mais, muito mais, com a fadiga material da imagem de José Serra. É óbvio que as qualis que antecederam o planejamento das campanhas apontaram isso – tanto para o PT quanto para o PSDB. 

Santana usou a informação com primor. O fato de Haddad ser jovem e, mais importante, uma cara nova para as urnas, foi fundamental. Mas a propaganda, começando pelo site e culminando com a linguagem dos programas, exalava o conceito do “novo”. 

No PSDB, decidiram não dar atenção ao aviso. Com a arrogância de sempre, subestimaram o adversário. Acharam que suas velhas e carcomidas fórmulas de marketing dariam conta do recado – mesmo quando a base delas, “a entrega”, a gestão de Gilberto Kassab, apresentava índices alarmantes de insatisfação.
O resultado se viu hoje. Péssimo para São Paulo. Promissor para país. 

Talvez, num futuro próximo, estejamos comemorando o fim das candidaturas decididas à mesa do Fasano. O fim do enredo de sempre, no qual um partido que deveria ser nacional impõem sempre os mesmos candidatos paulistas à presidência simplesmente porque é incapaz de fazer germinar lideranças em qualquer outro canto do país. Nenhuma delas, nos últimos anos, teve força contra os projetos pessoais do alto tucanato paulista. 

Pergunte a Eduardo Paes. Pergunte a Gustavo Fruet. Ou, melhor ainda, aponte uma notável e promissora liderança nacional do PSDB na faixa dos 40 anos.