domingo, 1 de abril de 2012

O Rainbow Warrior e os novos olhos do império

(Este artigo nasceu de um debate sobre este outro aqui ).
     

     O Rainbow Warrior, famoso navio do Greenpeace, agora em águas brasileiras

De fato, nada na presença do navio Rainbow Warrior em terras brasileiras – ou no discurso ecológico europeu que a sustenta - é realmente novo sob o sol. Sua origem, contudo, não está nas conquistas europeias do século XVI e XVII, mas num movimento um pouco mais tardio.

Notem que não se trata, aqui, de um exercício de nacionalismo exacerbado. É muito mais uma questão de conhecer a origem das coisas para não se cair em cantos de sereias que são mais velhos que a própria crença em sereias.

O que hoje é ecologia, ontem foi ciência aparentemente – e apenas aparentemente - desprovida de qualquer interesse financeiro. O que hoje nos é apresentado como preocupação desinteressada pela preservação do planeta, ontem se apresentava como deslumbramento puro pelo nascimento de uma ciência universal.

Desde o início do século XVIII, ao sabor de um discurso cientifico, África e América se tornaram alvos de um novo tipo de investida europeia, que pretendia descobrir novas fontes de matéria prima para a emergente demanda industrial.

Em uma das melhores obras que conheço sobre o tema, “Os olhos do Império: viagens de transculturação”, Mary Louise Pratt dá nome a este novo impulso ideológico, de caráter científico, que legitimou ação europeia dos séculos XVIII e XIX sobre zonas coloniais: “anti-conquista”. 

Este novo discurso se contrapôs ao antigo sistema absolutista de conquista e libertou o imaginário europeu do caráter predatório e violento dos primeiros conquistadores para conferir às novas expedições um aspecto de inocente interesse científico.

Para Pratt, dois acontecimentos, ambos ocorridos em 1735, exerceram especial influência nesta ruptura cultural: a expedição La Condamine - primeira expedição científica à América hispânica, que pretendia definir o formato da Terra - e a publicação de O Sistema da Natureza, do naturalista Carl Linné.

Embora tenha fracassado em seu objetivo principal – seus integrantes permaneceram perdidos ao longo de uma década na selva americana - La Condamine resultou em uma série de relatos que popularizaram um novo personagem no cenário da colonização europeia: o cientista. Já a Linné, cujo sistema permitiu classificar todas as plantas existentes no planeta, coube o papel de transformar as zonas coloniais em espaços de trabalho científico.

Muito rapidamente, o sistema de Linné foi transposto para as demais áreas da ciência e, no embalo de novas expedições, financiadas por recém-nascidas sociedades científicas, a Europa ingressou numa febre de catalogação – que começa com proliferação das coleções particulares e culmina nos museus de História Natural. 

Nos bastidores, porém, explica Mary Louise Pratt, o que de fato acontecia era uma associação entre interesses comerciais e científicos: estudantes de Linné eram patrocinados por companhias de comércio ultramarino e membros de expedições promovidas por sociedades científicas europeias eram orientados, secretamente, a observarem fontes de matéria-prima e oportunidades comerciais.

Então, uma nobreza de intenções camuflava o fato de que espécimes de flora e fauna, segredos de  geografia e dados geológicos importantes eram catalogados para futura exploração mercantil. Da mesma forma que, hoje, o discurso ecológico abre as portas de nossa biosfera para toda sorte de ONGs sem que suas reais intenções sejam realmente conhecidas. 

Se não houve “almoço grátis” para os estudantes de Linné, é preciso ser inocente ao extremo para acreditar que o há, agora, para os integrantes de organizações que dizem estar aqui para defender aquilo que não lhes pertence. Não enxergar este ambientalismo europeu que nos quer tutelar como o que ele, de fato, é – uma versão pós-moderna do neocolonialismo -  significa colocar-se na posição da vítima que se deixa vitimizar repetidamente. É incorporar a insanidade como Einstein a descreveu: repetir determinada atitude na expectativa de que o resultado seja diferente.
  
Ter em mente que, para além do amor ao planeta, interesses menos nobres podem financiar tais ações é uma obrigação nacional que, com raras exceções, não é levada a sério por qualquer instância de poder: governo, justiça e imprensa vêm engolindo o discurso do “bom ecologista” tal qual europeus e americanos dos séculos XVIII e XIX haviam engolido o discurso do “bom cientista”. 

A ausência de qualquer resistência a esta pauta ecológica - e sua consequente força hegemônica junto à opinião pública nacional – ajudam a entender o fenômeno Marina Silva. Mesmo sem qualquer proposta concreta para pontos prioritários da agenda eleitoral – saúde e segurança – Marina Silva conquistou 20 milhões de votos na última corrida presidencial carregando, tão somente, o discurso da preservação de recursos naturais. Nem mesmo uma denúncia de extração ilegal de mogno a avizinhar-se de seu círculo familiar foi capaz de abalar a imagem de protetora da natureza. O fato é que, temerosos de macular tal imagem, quase beatificada, erigida com o apoio do ambientalismo europeu, imprensa e adversários evitaram erguer o véu para revelar os interesses internacionais sob o mito. 

Finalmente, retornamos à Mary Louise Pratt para observar que a retórica derivada das explorações científicas dos séculos XVIII e XIX, era, sobretudo, “um discurso urbano sobre mundos não urbanos, um discurso burguês e letrado sobre mundos não letrados e rurais”, que acabava qualificando qualquer formação social que fugisse aos moldes europeus – em especial, àquelas preocupadas, prioritariamente, com sua subsistência - como atrasada, infantil e incapaz de gerir seus próprios recursos. O que, em tese última, legitimava uma intervenção europeia.

Qualquer semelhança com o discurso ecológico que o chamado mundo desenvolvido, suas ONGs e seus representantes nacionais hoje nos impõem, portanto, não é mera coincidência – e muito menos novo. O que o Rainbow Warrior e o Greenpace nos dizem, tal qual nos diziam os relatos científicos de outrora, é que somos incapazes de cuidar dos nossos próprios recursos. Mensagem, aliás, replicada por todas as organizações internacionais que querem interferir sobre o modo como desmatamos, plantamos ou usamos nossos recursos hídricos.

11 comentários:

Humberto Sisley disse...

uma aula muito boa, grato.

Luis Pereira disse...

você escreve muito bem, estou conhecendo o blog agora e notei que ficou muito tempo sem escrever. espero que agora tenha mais posts, vou acompanhar. grato

Luciano disse...

Bom artigo. Poucos são capazes de tirar lições da história, então ela tende a se repetir. Hoje temos meios muito mais eficazes para alcançar a opinião pública, mas não estamos explorando esse recurso, ao contrário das ONGs e seus patrocinadores.

Unknown disse...

Artigo fantástico... Muito esclarecedor... Parabéns.

Anônimo disse...

Fica cada vêz mais evidente que estas ONG internacionais lutam com o objetivo de implantar a idéia de "florestas aquí e fazendas por lá".Quanto aos 20 milhôes de votos da Marina,acredito que em grande parte decorreu da falta de alternativa para quem não queria votar no PT, nem no Serra.

Ari disse...

"... qualificando qualquer formação social que fugisse aos moldes europeus..."

Não conheço o latim, para avalizar a tradução, mas ouvi que o termo "aborígene" vem de ab origene, que significaria "sem origem".
Imperialismo puro.

Anônimo disse...

Excelente!
Há tempos não passava por aqui, não fosse a dica do Coronel.

Oliver disse...

Oi, querida amiga. Lê-la em primeiro de abril foi quase uma incredulidade, he he he. Seus textos fazem muita falta na blogosfera. Fiz "carreira de comentarista" lá no Augusto Nunes, com quem me afino muito com o texto ferino e com as boas bordoadas que ele distribui democraticamente pela petralhada zurra. Acho que faço melhor meu papel de divulgador dos bons, como o nobre Coronel, comentando lá o que leio aqui. Com este belo texto não foi diferente. Espero que minhas minúsculas sementes de boa intenção germinem numa boa audiência para você. Sou seu fã de velho, he he he. Segue meu comentário no Augusto Nunes:

AUGUSTO
Me permita vir aqui ao seu nobre espaço para indicar um texto de uma grande amiga de blogosfera, a Nariz Gelado. "O Rainbow Warrior e os novos olhos o império" marca a volta de uma combativa blogueira ao espaço político, sem dúvida, em grande estilo. Dona de um estilo doce mas contundente, a blogueira que divide as trincheiras de Floripa com o Coronel do Coturno e com o grande Aluízio Amorim, que fazem um trinca peso-pesado na análise do tabuleiro político das banânias brasileiras.
O link é este:
http://narizgelado.blogspot.com.br/2012/04/o-rainbow-warrior-e-os-novos-olhos-do.html
e a boa leitura é garantida. Também acho que é chegada a hora de mostrar com quantos cremes anti-rugas se faz uma Marina das Selvas. Nosso política é tão porca que uma gaiata montada num texto supostamente defensor de nossas mazelas arrebanha 20 milhões de votos dos incautos, nada menos que para a presidência deste nosso país de Avatares verde-amarelos. Absoluta falta de bom senso. Hoje entendo o poder de uma tribuna como esta. E entendo porque nosso grande jornalista não recebe ostensivamente a presença de políticos neste espaço, na busca de argumentos para suas retóricas estúpidas. Aparecem por aqui calados. Na surdina. Recebendo e não dando. Se iluminando apenas para continuar, tal como avestruzes, com o cabeção político enterrado na areia fofa da sem vergonhice. Isto explica porque nosso "candidato", ungido pela oposição meza mussarela e meza calabresa, consegue passar quinze meses em branco no Senado. "Falar", significa SE COMPROMETER. Alguém aqui acredita que estes nobres tribunos querem se comprometer com alguma coisa ? A sensação de abandono político que ora experimentamos tem muito mais de oportunismo tático do que pode imaginar nossa "van" filosofia, que é uma filosofia que cabe num utilitário pequeno. Essa gente é vigarista de berço, diferente dos atuais vigaristas, que são vigaristas do acaso. Por acaso a porta estava destrancada. E por ela entraram militantes de todos os cruz-credos e cores, com seus textos vagabundos e seus silêncios inexplicáveis, pela ótica da ética. Tucanos não querem ganhar as eleições. Não querem compromissos. Vão bem, obrigado, dividindo o país em zonas para melhor esquartejá-lo. Quando essa imensa lufada de bolor de esquerda passar, termos nossas pontes para reconstruir, nossa infra-estrutura para reerguer, nosso dinheiro lavado em paraísos fiscais para extornar e uma quadrilha de tamanho considerável para amanhecer sob o sol quadrado das leis. Até lá, ficamos a ver navios. Esse verdinho, do GreenPeace, é encrenca na certa.

beijos. saudades.

Anônimo disse...

Oi, Nariz Gelado! gostei, mas com essa gente 'ongótica' macomunada com a nossa santinha da floresta entreguista hay que endurecer e perder a ternura...Pau na moleira desses fingidos e espertinhos!

Velhinho Rabugento disse...

Estupendo texto, NG. Como muitos, senti a falta de seus escritos. Abração para você e o Coronel.

MOZAN0 disse...

Excelente artigo, irretocável, é mesmo surpreendente o interesse do Greenpace e outras organizações internacionais nos nossos assuntos internos.