Não pode haver surpresa com o fato de que Marina Silva apareça, nas últimas pesquisas, como a grande beneficiária das manifestações nacionais que andaram pedindo o fim da política e dos políticos.
Sem cargo legislativo ou executivo desde 2009 – e sem partido até o início deste ano - a fundadora do PT, ex- vereadora, ex-deputada estadual, ex-senadora e ex-ministra do governo Lula vem alimentando, com sucesso, uma imagem de criatura pura, jamais maculada pelos trâmites tradicionais da política nacional.
Mas não é só dos desavisados que ignoram sua longa carreira política dentro de um sistema que hoje ela diz condenar, que o marketing de Marina Silva se beneficia. Ela também encanta porque se apresenta como ícone do petismo envergonhado – a turma que votou em Lula em 2002 e sentiu-se traída em meados de 2005, quando o mensalão veio à tona. Para estes, Marina coloca-se como representante máxima da decepção e revolta com um PT que "se desviou do bom caminho", adotando táticas que condenara até chegar ao poder
.
Seria lindo se não fosse uma mentira deslavada – do tipo que só está colando porque ninguém tem coragem de chamar Marina Silva pelo que ela realmente é: uma oportunista, com ares de santa e ambições comuns a qualquer outro político que caminhe sobre a face da terra. “Qualquer outro político” é, na verdade, uma injustiça. Marina pode ser comparada aos piores se considerarmos como ela manipula a opinião pública dizendo combater um sistema no qual tem se banqueteado há pelo menos três décadas.
Hoje Marina se diz chocada com o maior escândalo de corrupção que a república já viu: o mensalão petista. E, embora jamais o diga literalmente, sua postura sempre deixa subentendido nas entrelinhas que o mensalão foi o motivo pelo qual ela teria abandonado o PT.
Nada mais ilusório. Na verdade, depois que as denúncias do mensalão estouraram, Marina se manteve no PT por quatro longos anos. De 2005 a 2009 ela conviveu, ombro a ombro, com os colegas mensaleiros – governando, sem qualquer pudor, com eles e para Lula. Queixava-se, sim, da “generalização” com a qual o senso comum julgava todos os membros do partido pelos atos de uns poucos – discurso que, aliás, mantém até hoje.
Se Marina saiu do PT em 2009 não foi por estar escandalizada com a falta de ética do partido – fosse isso, teria motivos de sobra para sair em já em 2005. Marina só saiu do PT porque abandonara o governo Lula, um ano antes, derrotada numa disputa política– daquelas bem típicas da política que ela hoje diz renegar – com o então ministro de assuntos estratégicos de Lula, Roberto Mangabeira Unger.
Afastada do governo, Marina Silva foi viver da política tradicional que ela hoje condena: reassumiu sua vaga no Senado Federal, de onde saiu apenas para candidatar-se à presidência da república pelo Partido Verde.
Tendo conquistado quase 20 milhões de votos no pleito de 2010, ela se manteve no PV até meados de 2011, quando parece ter percebido que ali não haveria espaço para suas ambições pessoais.
Dissimulada, em 07 de julho de 2011 Marina comunicou sua desfiliação do Partido Verde jurando, por todos os santos, que fazia tal coisa sem qualquer motivação eleitoral. Desde então tem trabalhado dia e noite para construir um partido que lhe permita candidatar-se novamente à presidência.
É por isso que sorrio constrangida sempre que alguém me diz que Marina Silva pode ser um “novo caminho” para a política nacional. Em primeiro lugar porque, como se viu, não há nada de novo em Marina Silva. Desde os tempos de Chico Mendes, tudo nela é dissimulação e vitimismo colocados a serviço do marketing eleitoral.
Depois, porque é óbvio que Marina só pode convencer a dois tipos de eleitor: os jovenzinhos crédulos e os ex-petistas que se dizem envergonhados. Os primeiros serão ludibriados por sua falta de cultura política. Os segundos se deixarão iludir novamente porque, ao que parece, não resistem à lábia de um falso messias.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Serra e o velho de Voltaire
"Não pode o homem ter mais que certo número de dentes,
cabelos e ideias. Tempo vem em que inevitavelmente perde os dentes, os cabelos
e as ideias". (Voltaire)
Na mais próspera e
estável democracia da história moderna, quem perde uma eleição presidencial
entende o recado: segue na vida partidária, como congressista, mas abre mão do
sonho pessoal de residir no número 1600
da Pennsylvania Avenue.
Foi o que fizeram George
McGovern, Walter Mondale e Michael Dukakis. Tradição também seguida por Bob
Dole, Al Gore, John Kerry e John McCain. Espera-se o mesmo de Mitt Romney.
Para além da
intenção genuína de querer ver o partido chegar ao poder – ou nele manter-se –, o
sujeito entende o recado das urnas de primeira também - e, talvez,
principalmente- para evitar um desgaste pessoal: não há espaço, na democracia
americana, para presidenciáveis profissionais. Ross Perot, o milionário excêntrico que concorreu como independente, tornou-se
motivo de piada entre os eleitores em 1996, quando insistiu – na primeira, em
1992, até respeitaram sua intenção.
Por aqui, não.
Claro que não. Por aqui há uma espécie de caudilhismo eleitoral, com perdedores
querendo eternizar-se na cédula para todo o sempre, na esperança de que, mesmo
eles sendo os mesmos, o povo um dia mude de ideia. Não dá pra dizer que é uma
jabuticaba – a coisa se repete em recantos latino-americanos. Mas aqui é moda
desde os primórdios da República.
Ruy Barbosa
insistiu em 1910 e 1919 – nunca levou. O
mesmo destino tiveram Eduardo Gomes e Ademar de Barros. Com o fim do regime
militar, a lista de insistentes fracassados incluiu Leonel Brizola, Enéas
Carneiro, Ciro Gomes e José Serra. Salvo engano, a tática de vencer o eleitor
pela insistência só deu certo três vezes: com Prudente de Moraes, que tentou em
1891 e levou em 1894, Afonso Pena, que tentou em 1894 e levou em 1906, e com Lula
– o único a tentar por quatro vezes.
Nos Estados Unidos da América espera-se que
um político preparado a ponto de candidatar-se presidente, após ter sido
rejeitado pelas urnas, use sua imensa capacidade a serviço do país – no partido,
no Congresso, em alguma entidade ou instituto. O que não se aceita é que ele se
torne um desocupado a perambular pela nação, tentando derrubar seus prováveis sucessores.
Eu diria que é o pragmatismo yankee
estimulando a vergonha na cara.
Por aqui, não. Por
aqui José Serra tenta forçar seu terceiro fracasso sem que ninguém – imprensa,
partido, assessores ou pessoas próximas – consiga lhe convencer do ridículo da
situação.
Como o velho de
Voltaire que abre este post, o que vemos agora é um José Serra sem cabelos, sem
dentes e sem ideias, a se arrastar pelos corredores do poder, tentando
convencer a si e aos tolos de que tem o carisma de um Lula - e que vai emplacar na terceira vez. O partido
que se dane. O país idem.
terça-feira, 16 de julho de 2013
"Menos marketing, mais franqueza" e outras histórias da Carochinha
“Na perspectiva do panorama visto de Brasília, a campanha
eleitoral será totalmente diferente das dos últimos anos em que prevaleceu o
marketing sobre o diálogo franco e maduro com a sociedade”.
(Dora Kramer, em sua coluna de hoje para o Estadão)
Há uma porção de erros nesta afirmação – que, se entendi
direito, não é o que pensa Dora Kramer, e sim o que ela tem ouvido de seus
interlocutores no Palácio do Planalto. Só me resta torcer para que os petistas estejam mesmo acreditando nesta bobagem de "menos marketing" - e que a oposição passe longe dela.
Em primeiro lugar a declaração acima evidencia a ilusão, bastante comum, de que o marketing
político se opõe ao diálogo franco com a sociedade. Ora, queridos: sem
marketing político a maioria da população nem sequer sabe que o diálogo está
acontecendo. Sem marketing político, o tal diálogo franco com a sociedade é
prazer reservado a poucos, nos debates que varam a madrugada, no Roda Viva e em
outros recantos de baixíssima audiência.
Obviamente, nas entrelinhas desta declaração percebe-se, também, aquela gostosa
demonização do marketing político – a quem o senso comum tupiniquim tem atribuído
todas as mazelas políticas da nação. Já escrevi no passado sobre como o bom marketing
- que é o de sucesso e, por isso mesmo, alvo constante de ressentimentos - não
mente. Cliquem aqui para reler.
Mas há mais: na revelação do petista à colunista está a certeza, agora
evidenciada pelas ruas, de que as pessoas estão fartas dos políticos
tradicionais, que querem algo diferente do que aí está. É esta certeza que, ao que tudo indica, está embalando a nova postura dos que habitam o Palácio do Planalto.
A rejeição aos políticos tradicionais pode até ser novidade para alguns setores da política e da
imprensa. Mas para o marketing político esta tendência mundial é tão velha
quanto a primeira eleição de Obama - que tinha como principal característica,
fartamente explorada por seus marqueteiros, um "jeito diferente de se comportar"; uma "postura independente" das tradições e
círculos políticos consagrados do cenário americano.
Em praias brasileiras, isto que hoje muitos acham que é
novidade desembarcou em 2010. Foi a bordo desta estratégia - da candidata “sem
marketing”, “diferente”, que “não tem jeito de político convencional” - que Marina
Silva alcançou quase 20 milhões de votos. Por óbvio que, agora, quando as ruas escancararam
aquilo que antes só os marqueteiros conseguiam enxergar, Marina vai seguir
firme no mesmo discurso.
Raimundo Colombo é outro exemplo. O catarinense – que em sua biografia diz não
acreditar em marketing, mas contratou para si um dos melhores marqueteiros do
país – tinha como principal característica a seu favor o fato de “ser diferente”
e “não parecer um político como os outros”. Era isto que aparecia nas pesquisas
qualitativas – e que alicerçou toda a sua vitoriosa jornada rumo ao governo do
estado.
Daí se conclui aquele óbvio que a oposição deve levar em conta se quiser ter alguma chance: essa história de “menos marketing e
mais qualquer-coisa-idealista-ou-romântica-que-você- quiser-inserir-neste-trecho nada mais é do que o bom e velho
marketing político. Na veia. E da melhor qualidade.
terça-feira, 9 de julho de 2013
Snowden vai salvar Dilma - e a oposição vai ficar vendo a banda passar.
Antes de tudo: não estou aqui referendando o monitoramento que
os EUA estariam operando em outros países. Penso, sim, que é de uma extrema ingenuidade nossas autoridades tratarem a coisa como se fosse a descoberta da roda.
Quer dizer que altíssimas patentes do Governo Federal e da
Defesa acreditavam, até o último final de semana, que o país que inventou a
internet e a telefonia celular, e que vive sob ameaça terrorista, não estaria
bisbilhotando as comunicações através do mundo.?
Ai, me poupem, por favor. Seria o caso de recomendar menos Pollyanna
e mais seriados de televisão – que são ficção, ok, mas carregam consigo alguma
verossimilhança. Só que certamente não é este o caso.
O governo e os serviços de inteligência nacionais devem
saber – ou no mínimo desconfiar - que isto ocorre há anos. O que aconteceu, agora, é que as revelações de
Edward Snowden a respeito do monitoramento das comunicações no Brasil vieram a
calhar. Eu imagino até a Dilma fazendo uma dança comemorativa - no pior estilo Ângela
Guadagnin, lembram? – ao saber que os documentos de Snowden incluíam a nação.
Não é novidade que Hugo Chavez fez escola com este pessoal
que hoje nos governa. Logo, o que é
melhor para um governo, cujo povo anda nas ruas a reclamar de tudo e por tudo,
do que encontrar um inimigo externo? Muda-se a agenda do dia para noite. Na
pior das hipóteses, os gatos pingados que ainda persistem nas ruas começam a produzir cartazes contra os yankees. Na
melhor, vão pra casa porque a nação foi ameaçada é a hora é de união.
A operação de venezuelização
começou já no domingo com a matéria do Fantástico. A imprensa,
afobada, embarcou na onda com a manchete
“o Brasil é o país da América Latina mais monitorado pelos EUA" – uma estupidez
quando consideramos que se os EUA estão monitorando a América Latina, e o
Brasil é o maior país da América Latina, só pode ter o maior volume de
comunicações e, portanto, ser o mais monitorado.
Mas o fato é que a tolice sensacionalista colou e, já na
segunda-feira, os ânimos entre membros do governo e do parlamento estavam a tal
ponto inflamados que não houve espaço para uma voz mais sensata, que tentasse
dizer “respira aí minha gente, antes de sair a dizer - e fazer - bobagens”.
De ontem para cá o clima foi de histeria. Ideli Salvatti –
cujas fofocas palacianas davam conta de que estaria na frigideira de Dilma –
renasceu para avisar que a soberania nacional está em xeque e – malandragem da
primeira hora – querer apressar a votação do marco civil da internet na Câmara.
Os plenários do Senado e da Câmara,
aliás, viram discursos inflamados, como
não se via há semanas – pelo menos, desde meados de junho, quando todos passaram
a adotar um tom mais humilde de taciturno.
Hoje, na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional,
foram aprovados requerimentos para se ouvir legiões: do colunista do The
Guardian aos representantes do Google e do Facebook, estão todos convidados. A
mesma comissão também aprovou um voto, a ser encaminhado à Presidência da
República, em que manifesta apoio a um eventual pedido de asilo ao governo
brasileiro por Edward Snowden.
Vinda do governo, a patacoada sem precedentes não espanta. Como
eu disse acima, as revelações de Edward Snowden acabaram oferecendo uma bela oportunidade de mudança de ares na pauta nacional. O que assusta é que parlamentares da oposição estejam
caindo neste jogo.
Entende-se que a oposição não possa ir a público dizer “calma
gente, não é bem assim”, sob pena de ser acusada, pelos governistas, de “traição
à pátria”. Mas que ao menos guardasse um silêncio cauteloso antes de cair na
arapuca que o destino armou e Dilma agarrou com unhas e dentes.
domingo, 7 de julho de 2013
Quando tucanos sabotam tucanos
O primeiro obstáculo que o PSDB precisa enfrentar antes de
sonhar com um retorno à presidência da república é o próprio PSDB.
A obviedade da afirmação acima não impede que, de quatro em
quatro anos, a verdade nela contida reapareça para operar desastres. É uma doença crônica: o PSDB não consegue
superar suas disputas internas, em especial as pré-eleitorais, para garantir
uma vitória nas urnas.
Comecemos por aquilo que eu chamo de as três pragas da
militância tucana: aecistas, serristas e alckmistas. Muito ativas na internet, estas
miríades de patetas que voejam em torno das principais figuras do partido seguem
se digladiando mesmo depois que já foi decidido quem será o candidato.
Embora eu desconfie – pela frouxidão de propósito que sua
atitude online revela - que jamais partam para um corpo-a-corpo durante as
campanhas, estas “facções” provocam um senhor estrago. Ao invés de promover a
união em torno do escolhido, perdem tempo e energia digladiando-se e jogando
pedras no candidato da vez. As áreas de comentários dos blogs dedicados à
política e, mais recentemente, as redes sociais estão repletas de exemplos
desta idiotia eleitoral.
Não se vê tal coisa no petismo. Uma vez que Lula – sim, ele
sozinho - decidiu que Dilma seria sua sucessora, a militância não só acatou a
decisão como passou a trabalhar furiosamente por ela. Para além das fronteiras,
passadas as prévias, não se viu os partidários de Hillary Clinton tentando
derrubar Obama. E eu fico realmente incomodada que seja preciso escrever tal
coisa porque é óbvio que só assim se ganha uma eleição. Se os filiados não
conseguem unir forças em torno de um determinado nome, o que esperar do resto
do eleitorado?
Sei bem que não há prévias no PSDB. Os candidatos ali são
definidos ora numa mesa do Fasano, ora por teimosia, ora pelo pragmatismo do “como
não vamos ganhar mesmo, enviemos fulano para o sacrifício”. Eu até entendo que esta postura revolte a militância.
Mas a pergunta é: vocês querem mudar o partido ou ganhar a eleição?
Para o próximo pleito, o candidato será Aécio Neves. Acertadamente, desta vez o PSDB decidiu com
bastante antecedência - é preciso tempo para trabalhar nacionalmente o nome de
um candidato que nunca disputou uma eleição presidencial.
Quanto mais cedo a militância entender que está decidido, e que
não haverá prévias ou recuos na decisão, mais aumentam as chances de Aécio – que são as
chances do PSDB, pelo amor da santinha. Mas já noto que estão preferindo, como em 2006
e 2010, perder um tempo precioso, nas redes e fora delas, para tentar reverter a
decisão. Se insistirem nisso, acontecerá
o de sempre: a candidatura morre antes mesmo de começar a campanha oficial.
O (mau) exemplo que vem de cima
Sim, eu acho que é uma generosa evidência de - perdão - burrice que a militância tucana não se dê
conta, por si mesma, do quanto a postura acima relatada inviabiliza as chances
do PSDB voltar ao Governo Federal. Mas também é verdade que os líderes do
partido não trabalham para promover a união.
Ao contrário: alimentam, constantemente, a disputa.
Vou me abster de falar das campanhas anteriores – quando tivemos
Fernando Henrique sabotando a campanha de Serra, Aécio e Serra sabotando a
campanha de Alckmin, Alckmin e Aécio sabotando a campanha de Serra. Os arquivos do blog, disponíveis aí, na
coluna da margem direita, estão repletos de artigos sobre isso. São dez anos de
arquivos. Um registro histórico lamentável de muitos tapetes puxados e farta
distribuição de cascas de banana. Mas a
pergunta para a militância, mais uma vez, é: vocês querem fazer justiça interna
partidária ou ganhar a eleição?
De minha parte, prefiro me concentrar no quadro atual. E ele
é cristalino – lamentavelmente cristalino.
Em meados de maio, quando tudo indicava que 2014 seria uma
eleição pró-forma, com Dilma sendo simplesmente reconduzida ao poder, o PSDB
entregou o bastão de mando para Aécio Neves. Serra tentou se conter e Fernando
Henrique apareceu apenas para dizer que era a vez do mineiro.
Na convenção do dia 18 de maio, Aécio foi escolhido
presidente – uma condição fundamental para nacionalizar seu nome – e apontado
como candidato único do partido para o pleito de 2014. Todas as lideranças,
inclusive um titubeante José Serra, foram ao microfone para declarar apoio a
Aécio. Decisão mais do que acertada, mas tomada – diante do que agora se vê –
por razões tortas. Estavam entregando a Aécio, de bom grado, uma eleição
praticamente perdida.
Até meados de junho, tudo correu a contento: os programas e
propagandas de televisão do PSDB privilegiaram Aécio. Também foram entregues a
ele todos os espaços na imprensa. Na qualidade de líder máximo do partido e candidato
à presidência, Aécio Neves tornou-se o porta-voz da legenda.
Então vieram as gigantescas manifestações, o #vemprarua, e, na
sequencia, pesquisas mostrando um sério, ainda que momentâneo, abalo na
popularidade de Dilma Rousseff. Foi o
que bastou para que as lideranças tucanas começassem a dar mostras de que a
unanimidade em torno de Aécio era apenas a unanimidade em torno do nome que “vai
perder a eleição para Dilma”. Na melhor das hipóteses, estavam apostando que
Aécio apenas pavimentaria o caminho para 2018.
Sempre podemos contar com a falta de timing de Fernando
Henrique
Fernando Henrique certamente não pretende voltar à presidência
da república. E defende, de peito aberto, a candidatura de Aécio. Mas, vaidoso
como ele só, não resistiu à tentação de aproveitar o péssimo momento do PT para
empreender uma justiçazinha pessoal. Depois de uma década sendo escorraçado pela
hegemonia petista no cenário político, ficou lisonjeado de voltar à luzes da ribalta para comentar o
que interpretou como um sinal das ruas de que seus mais cruéis adversários
estavam perdendo força.
A onipresença de Fernando Henrique neste momento é
prejudicial não porque ele dispute a candidatura com Aécio, mas porque toma do
mineiro um espaço precioso na imprensa. Um líder menos vaidoso e mais consciente de
seu verdadeiro papel neste momento negaria entrevistas tentando forçar convites
para o atual presidente do partido – mesmo arriscando perdê-las.
No mínimo porque, a
despeito da predileção da imprensa por ele, o recall de Fernando Henrique não é
bom nas classes menos privilegiadas – aquelas que enchem urnas. Também alguns de seus posicionamentos pessoais
– como o apoio à liberação da maconha, por exemplo – podem afastar o eleitorado
mais conservador, do qual o PSDB não pode prescindir se quiser derrotar o PT. Finalmente, que uma parte do país esteja gritando
contra o PT nas ruas não significa que passou, enfim, a reconhecer o valor de
Fernando Henrique. De novo: um líder consciente de seu verdadeiro papel neste
momento evitaria cair em tal armadilha.
É, eu sei. Fernando Henrique é um intelectual respeitado, com
uma atuação presidencial exemplar, que só enriquece e orgulha o partido, etc e
tal. Mas a pergunta é: vocês querem fazer jus a Fernando Henrique ou ganhar a eleição?
José Serra e seu sonho pessoal : uma terceira derrota no
horizonte
Sumido desde que perdeu a
prefeitura de São Paulo para Fernando Haddad, José Serra ensaiou alguma
resistência no período pré-convenção. Em abril ele reapareceu como articulista
do Estadão, ao mesmo tempo em que a imprensa dava conta de uma possível mudança
para o PPS – o velho estilo Serra de ameaçar o partido com uma retirada para
tentar barrar o nome de Aécio. Mas como logo Roberto Freire apareceu para esclarecer
que o convite não incluía uma candidatura à presidência, o assunto morreu.
Em maio, Serra foi à convenção e parecia conformado com a
realidade posta. Mas bastou que, no início de junho, pesquisas realizadas pela
CNI e CNT apontassem a possibilidade de um segundo turno em 2014, para que Serra mandasse um recado: ele ainda estava no jogo – o mural da vez foi a coluna de
Dora Kramer no Estadão.
Quando, na segunda metade de junho, a onda das manifestações
tomou força, José Serra arranjou duas páginas na Veja para falar de Albert Otto
Hirschman e (podem rir) de “resultados
que seriam considerados impossíveis por um raciocínio baseado apenas na
probabilidade”. José Serra
articulista de Veja é algo que, salvo algum lapso de memória, só se viu em
fevereiro de 2010, quando ele tentava se consolidar como candidato para o pleito
presidencial daquele ano.
Uma parte deste artigo já estava pronta ontem, enquanto a
matéria da Folha de S. Paulo deste domingo ainda estava no prelo. Agora se sabe
que Roberto Freire está revendo a possibilidade de apoiar Eduardo Campos e acenando
para José Serra com uma candidatura presidencial via MD - uma nova legenda a ser formada a partir da fusão entre PPS e PMN. Serra ainda está pressionando o PSDB para
que volte atrás. Se concretizar a ameaça, o máximo que ele vai conseguir é
levar Marina Silva a disputar o segundo turno com Dilma.
Todo mundo tem, é claro, o direito de se candidatar à
presidência da república. Serra tem todo
o direito de achar que, como Lula, “vencerá na terceira tentativa” – ainda que
a recente derrota para Haddad em São Paulo, tradicional reduto tucano, lhe esfregue na cara que não. Mas a militância do PSDB não tem o direito de
cair nessa outra vez. Porque a pergunta
é: vocês querem ver Serra candidato ou querem ganhar a eleição?
sábado, 15 de junho de 2013
Por que eles vão às ruas? Um texto sobre retardo coletivo
A manifestação deste sábado em Brasília ilustra bem o que
vem acontecendo em algumas ruas do país – inclusive, o que aconteceu em São
Paulo ao longo desta semana. Grupos de
brasileiros estão indo às ruas sem objetivo algum, movidos apenas pela vontade de
protestar.
A onda não é nova. Há tempos que vemos coisas assim ao redor
do mundo. Os protestos “contra a globalização” oferecem, talvez, o exemplo mais
bem acabado de manifestantes que vão às ruas movidos simplesmente pelo desejo
de virar notícia e alentar a alma com a ilusão de que estão a mudar o mundo. Indiquem
uma só vez que a tal da globalização sofreu qualquer abalo por conta destes
protestos e aceito rever a afirmação.
No Brasil a moda até demorou a chegar. A jabuticaba levou algum
tempo para brotar e gerar frutos. E,
embora a safra ainda seja tímida – exceto por São Paulo, o número de gente nas
ruas foi, até o momento, bem mirrado – chega eivada daquele retardo coletivo que nos cai tão bem.
Os novos caras pintadas
O que querem os manifestantes de Brasília? Protestar "contra
as obras da Copa” – a roubalheira, o superfaturamento, o fato de que há coisas
mais importantes merecendo atenção do Estado, etc e tal. Então lá vão eles, protestar
“contra as obras da Copa” quando elas já
estão praticamente entregues. Não o
fizeram por ocasião da campanha que levou o Brasil a ser sede da competição.
Também ficaram em casa à época do lançamento dos editais para as tais obras. Apresentam-se
agora, como soldados que chegam ao front depois de assinado o armistício.
São os inúteis manifestantes de uma causa morta e enterrada,
sem qualquer reivindicação que possa ser atendida. Chances de que venham a impedir a realização
da Copa – ou, vá lá, mais verbas para o que interessa? Zero. Utilidade do
movimento? Zero. Índice de retardo coletivo? Dez.
Impossível não rir diante do ridículo que estes de
Brasília se autodenominem “caras pintadas”. Querem se apropriar da força
simbólica de uma das poucas manifestações de rua do país que surtiu o efeito
desejado: a campanha pelo impeachment de Collor.
Alguém deveria contar a estes jovens imberbes que daquela vez deu
certo não apenas porque havia um PT na oposição a insuflar e organizar as
coisas. Havia, antes de tudo, um objetivo claro: tirar do poder um presidente
corrupto. Havia, também, um indiscutível tecido de fundo a sustentar o apoio
popular: aquele presidente confiscara dinheiro da classe média; desferira um
golpe mortal contra o bolso, que é onde reside o coração do povo.
O fetiche da primavera
É, eu sei. Das muitas coisas que se tem dito sobre o que
aconteceu em São Paulo ao longo desta semana, há a versão de que, a despeito do
preço do transporte público, a volta da inflação seria o pano de fundo a
sustentar o suposto apoio popular ao movimento. Não é. Não chegou a um ponto crítico o suficiente para sê-lo. E a verdade é que, até a
polícia usar de violência, nem havia em São Paulo o apoio popular que querem
nos fazer crer. Somente quando jornalistas e pessoas que não estavam na manifestação foram agredidos é que a população em geral passou a dar importância - à agressão; não à causa difusa do protesto.
Ocorre que tão descabido quanto a manifestação “contra as obras da Copa”
é este movimento em São Paulo que se origina, vamos lembrar, na esperança da “tarifa zero” para o transporte público- os tais R$ 0,20
começaram a aparecer nos cartazes só quando o ridículo da reivindicação inicial
ficou evidente. Chances de que a tarifa seja
extinta? Zero. Utilidade do movimento? Zero. Índice de retardo coletivo? Dez.
Se quiserem mesmo ver um denominador comum nos manifestos da
última semana - e enquanto escrevo há outro, também sem objetivo concreto, ocorrendo em Belo Horizonte - sugiro que se debrucem no fetiche adolescente de criar uma
versão nacional da primavera árabe. Isto, é claro, sem que se tenha, aqui, o objetivo de derrubar um regime opressor. Ninguém aqui quer derrubar governos. Na maioria dos casos a miscelânea de palavras de ordem é tamanha que a imprensa tem dificuldades para saber o que quer aquela gente reunida no meio da rua.
Pois tudo o que querem os nossos atuais manifestantes é criar um
movimento via redes sociais – ponto bem importante do fetiche –, sem liderança definida, que leve jovens
às ruas para protestar contra... Contra o quê mesmo? Pouco importa. O frisson está em mostrar que “saímos da
frente do computador”. O principal
objetivo é emplacar imagens espetaculares na imprensa. E não precisa ser um
observador muito atento para perceber a teatralidade com a qual os
manifestantes de São Paulo se ajoelhavam diante da polícia - ora oferecendo flores, ora mostrando o punho fechado - buscando, de um jeito meio patético, repetir aqui cenas já consagradas pela imprensa em partes
do globo onde ir às ruas é um papo mais sério.
Filma eu
É verdade que encontraram bons parceiros para a empreitada. Com raras
exceções, a imprensa mal disfarçou a euforia com a versão tupiniquim do
espetáculo primaveril. Penso ser desnecessário dizer o quanto a ação policial - ao que tudo
indica desproporcional em São Paulo - contribuiu para o show. Não há holofotes
sem mártires. E sem sangue não há mártires para os holofotes.
Esta lição nossos manifestantes já aprenderam. Nos últimos dias, arranhões bobos foram exibidos com a mesma pompa das lesões mais graves. Medalhas de uma guerra na qual a ausência de um inimigo claramente estabelecido acabou por transformar a polícia - única peça em jogo com papel definido - em alvo principal. Tolice atrás de tolice.
“E agora, NG, você quer decidir como e por que vão às ruas
os brasileiros?”
Deus me livre. Cada um vai às ruas pelos motivos que quiser.
Se quiserem ir sem motivos, como agora, fiquem à vontade. Só não queiram me
convencer de que está acontecendo algo importante no Brasil neste momento. Porque este país tem problemas sérios demais
para ficarmos criando teorias sociais – sim, houve isso - em torno do que não
é mais que um desejo juvenil de fazer de conta que se está mudando o mundo.
Só há um aspecto que realmente me interessa nesta história: o
debate sobre como canalizar a energia desta turma desmiolada para alguma causa importante
e possível. Mas eu sou humilde o suficiente para reconhecer que esta é uma
tarefa para feras da sociologia e da comunicação. A mim resta torcer para que, quando
surgirem , tais feras estejam do lado claro da força. Porque se hoje esta turba não tem rumo, também é verdade que tem potencial.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Marina, Yoani e o vitimismo como estratégia de marketing político
Não é de hoje que o vitimismo tem se mostrado uma poderosa
estratégia para a “conquista de mentes e corações”. A trajetória de Gandhi está
aí para comprovar que a força deste recurso discursivo antecede o marketing político
como hoje o conhecemos. É uma força que reside, antes de tudo, na
universalidade da sua linguagem: todos somos capazes de reconhecer e simpatizar
com a fragilidade e vulnerabilidade humanas.
Não vou, aqui, me demorar sobre questões óbvias como a
construção de um discurso maniqueísta – do forte opressor contra o fraco
oprimido -, invariavelmente emitido em volumes que dispensam a agressividade e
abundam em melancólica condenação a sugerir mudanças. Também penso que são desnecessárias observações
sobre o importante papel desempenhado pela linguagem não verbal – de uma
imagética que, idealmente, inclui fragilidade física, gestual contido e
assexuado, bem como o uso de panos, mantos e outros trapos a cobrir o corpo.
Prefiro falar do quanto, durante seu período embrionário, tal
construção parece passar despercebida por gente com tino para as coisas da política.
Na maioria das vezes, os beneficiários da estratégia vitimista só passam a ser
encarados como tal depois que já ganharam peso político suficiente para
influenciar as urnas.
Confesso que me coloco fora deste distraído clube por uma
questão simplória e jocosa; um traço de personalidade: na vida ou na política,
detesto vitimismo. Sou do tipo que quando a amiga vem se lamuriar do marido
pela terceira vez já começo a ficar grosseira, sugerindo o divórcio. Logo, é a impertinência que faz soar o meu
radar interno sempre que vejo germinar uma liderança política com base em um discurso
vitimista.
Daí que, muito cedo, coloquei Marina Silva em meu radar. Ela
nem era senadora e eu já sentia eriçar os pelos da nuca ao perceber, em sua
trajetória, os sinais clássicos de uma estratégia vitimista: o
histórico de dificuldades, a fragilidade física sempre evidenciada, a voz
sôfrega a suavizar o peso de um discurso de conteúdo radical e, é claro, os
panos. Riam da força imagética dos “panos”
sobre o inconsciente ocidental todos aqueles que nunca se dedicaram ao estudo
da arte sacra.
Mas falar sobre e Gandhi e Marina Silva está fácil demais
por estes dias. Difícil é identificar em Osama Bin Laden as mesmas táticas,
direcionadas – fique bem claro – a objetivos totalmente diversos. Difícil é olhar para Yoani Sanchez, perceber
que a estratégia já vem em bom curso e arriscar-se a perguntar até que ponto é
consciente ou resultado de uma intuição poderosa.
Não, não penso que Yoani Sanchez é, como querem alguns
adeptos das teorias conspiratórias, agente do regime cubano. Também não duvido que,
como afirma a última edição da revista Veja, exista uma operação para
espioná-la em sua visita ao Brasil.
Para ser bem franca, nenhuma das duas coisas me interessam. Yoani Sanchez só me interessa porque percebo
em sua conduta elementos inconfundíveis do vitimismo enquanto estratégia de marketing
político. Seu discurso, que ultrapassou as fronteiras da internet para ganhar a
admiração mundial, é um lamurio triste a apontar problemas e injustiças às
quais parece não ter forças – espirituais ou físicas - para resistir. Seus
posts e tweets são permeados de sinais de que descartaria qualquer atitude
mais enérgica contra um regime reconhecidamente perverso e violento.
Por pior que
seja a situação relatada, não há um só pingo de revolta estridente, de bílis, no
discurso de Yoani. E o fato óbvio é que ela não seria laureada ou reconhecida
internacionalmente se mostrasse o fígado. O palatável, por esses dias, fala
manso; comove antes de seduzir; conquista pela fragilidade aparente.
É verdade que ainda
não vi – embora não tenha procurado – Yoani Sanchez envolta em panos. Mas também
é fato que os longos cabelos, por ora, lhe caem nos ombros produzindo efeito
similar. É preciso, ainda, reforçar o questionamento feito anteriormente: impossível
saber até que ponto o que está em construção é fruto de um processo intuitivo
ou de uma estratégia primorosa. Mas é
obrigatório aceitar que, como filóloga, a cubana não ignora por completo as
artes do discurso.
Admito que é com curiosidade quase científica, e um tanto de
divertimento, que venho acompanhando a trajetória de Yoani Sanchez. É certo que a blogueira
ingressará na vida política tão logo a oportunidade se apresente. E vai surpreender.
Principalmente aos que hoje lhe dão projeção a fim de atingir governos de
esquerda. Na melhor das hipóteses, arrisco
que estão ajudando a criar outra Marina Silva.
domingo, 16 de dezembro de 2012
O massacre de Sandy Hook: coisas que a TV não vai mostrar.
Bath, Michigan, 18 de maio de 1927: o fazendeiro Andrew Kehoe mata a esposa, incendeia sua
propriedade e se dirige para a escola
local. Ali detona duas bombas que plantara anteriormente, matando 38 crianças,
seis adultos e a si mesmo.
Desde então, inúmeros ataques semelhantes ocorreram em
escolas americanas. Entre os assassinos,
estão dirigentes, pais, alunos, ex-alunos e, em alguns casos, gente sem
qualquer envolvimento direto com a escola. Entre as armas escolhidas, encontra-se
dinamite, bombas caseiras e, é claro, armas de fogo.
A proliferação deste tipo de crime, a repetitiva escolha do
cenário escolar, o perfil dos criminosos e sua motivação inspiraram inúmeras
pesquisas acadêmicas, sem que se pudesse chegar a uma conclusão precisa sobre aspectos
determinantes que envolvem tais episódios. Nem mesmo a consagrada BAU, Behavioral Analysis Unit , unidade
de análise comportamental do FBI, conseguiu bater o martelo sobre a questão.
Por isso, espanta a naturalidade com que a imprensa – especialmente
a televisiva - consegue chegar ao veredito cada vez que uma
tragédia desta monta se repete: a culpa é do fácil acesso às armas de fogo.
Na melhor das hipóteses, soa ingênuo. Na pior, parece fruto
de um macabro senso de oportunidade, que impulsiona âncoras, entrevistadores e
comentaristas a um despudorado aproveitamento político da tragédia. Usa-se o
momento de perplexidade para triturar a Segunda Emenda da Constituição
americana, que dá ao cidadão o direito de ter armas de fogo, e, na sequencia,
difundir o discurso do desarmamento. Neste
afã, números significativos sobre criminalidade são esquecidos: enquanto no
Brasil, terra da campanha do desarmamento, temos um índice de 26,2 homicídios por 100 mil
habitantes, nos EUA – terra onde quatro em cada dez cidadãos possuem armas em casa
– o mesmo índice é de 4,6.
Não se quer dizer, com isso, que a facilidade de obter uma
arma não tenha papel importante neste tipo de episódio. Certamente tem. Mas não é o principal. E não é, certamente, o “gatilho” de tragédias desta natureza. As
armas, vamos colocar cada coisa em seu lugar, surgem como método. Não como
motivo. Uma vez decidido a operar um massacre, o psicopata parte para o planejamento
– é neste momento que o fácil acesso às armas faz a sua parte. Mas não se
enganem: uma vez decidido a matar, o psicopata faria uso de qualquer coisa – das
bombas caseiras, cujas receitas estão disponíveis na internet, ao veneno de
rato na merenda escolar, as opções são infinitas.
A constante fundamental nestes crimes, não por acaso sempre esquecida
pelos especialistas convidados pelas redes de TV, é outra – e muito mais ligada
ao “gatilho” do que a facilidade de acesso às armas. A constante em casos assim
tem sido a necessidade de fama por parte do psicopata; o desejo de causar uma
verdadeira comoção coletiva, a determinada e louca vontade de ser, enfim, o ator
principal de um grande drama televisionado – que não raro inclui ingredientes
de vingança contra colegas, pais e professores.
É claro que a TV não é a fonte única de inspiração. Cinema,
literatura e videogames já foram apontados como combustíveis para mentes psicologicamente
abaladas. Mas o elemento da conquista da fama tem estado sempre presente nas
últimas décadas.
Se a imprensa tratasse o tema com a necessária seriedade, o
papel da televisão na proliferação deste tipo de crime - principalmente a
partir de meados da década de 1960, quando as transmissões em cadeia nacional
se tornaram rotina no cotidiano norte-americano - não seria ignorado.
Não se está, aqui, reivindicando censura. Nem mesmo o código
ético informal aplicado usualmente ao suicídio. Obviamente, seria impossível
não informar sobre um massacre desta magnitude. Mas é preciso explorá-lo com
tamanha sanha? São mesmo necessárias as infindáveis transmissões? Audiência vale tudo?
A questão, notem bem, é de honestidade: até que ponto podemos levar
a sério os inúmeros debates televisivos sobre desarmamento enquanto não é dita
uma única palavra sobre a influência da imprensa na inspiração destes episódios?
Entende-se o constrangimento. É realmente difícil imaginar que,
em meio a uma tarde inteira de transmissão sobre o mais novo drama, a
entrevistadora vá perguntar ao especialista da vez: “professor, e de que forma
o que estamos fazendo no momento, essa extensa cobertura, pode inspirar novos massacres?”
Mas uma vez que tal postura não é adotada, seria respeitoso
não colocar a questão das armas no centro das discussões, como motivação
principal para este tipo de crime. Respeitoso com os telespectadores porque é mentira. E, acima de tudo, respeitoso com as vítimas e seus familiares, que
não merecem ser explorados politicamente em momento de tamanha dor.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
De Roberto Jefferson para a posteridade
"Desde agosto de 2003 é voz corrente em cada canto desta casa, em cada fundo de plenário, em cada gabinete, em cada banheiro, que o seu Delúbio, com conhecimento do seu Zé Genoino, sim!, tendo como pombo-correio o Sr. Marcos Valério - um carequinha, que é publicitário lá de Minas Gerais - repassa dinheiro a partidos que compõem a base de sustentação de governo, num negócio chamado mensalão. "
(Jefferson, Roberto, à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, em 14 de junho de 2005)
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